Lição 05 - Um Chamado à Santidade

"Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor"  - Hebreus 12.14
Texto Bíblico Básico: Atos 5.1-10
A MENTIRA DE ANANIAS E SAFIRA
Ananias e Safira viveram no período de maior pureza e poder da igreja. Por isso, vamos considerar, em primeiro lugar, a situação da igreja na emocionante era apostólica: “Da multidão dos que creram era um o coração e a alma. Ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum” (Atos 4:32). Isso é simplesmente impressionante. Àquela altura, o número de crentes provavelmente chegava a cinco mil ou mais e, mesmo assim, eles eram um só coração e uma só alma. Na Escritura, algumas vezes o coração é usado para se referir, em um sentido mais amplo, à parte não material do ser humano, incluindo tanto o coração quanto a alma. No entanto, diferente da alma, o coração, aqui, provavelmente se refira somente ao espírito, a faceta mais íntima da constituição humana, o centro do seu ser, ao qual Deus Se revela e no qual Ele habita. Aqueles primeiros cristãos sentiam um vínculo espiritual no nível mais profundo da sua vida. Seu espírito estava entrelaçado com a vida e o amor de Cristo. Eles sabiam que pertenciam uns aos outros como irmãos e irmãs em Cristo.
Mas a Escritura não para por aí e diz também que eles eram uma só alma, e isso é uma coisa totalmente diferente. A alma é a força consciente de um homem, sua personalidade, a qual consiste da mente, das emoções e da vontade. É nesse nível que o ser humano pensa, sente e faz escolhas. Essa é a área da experimentação. Aqueles primeiros cristãos não apenas eram um por causa da sua posição em Cristo, mas eram um também na prática. Eles pensavam do mesmo jeito, tinham profundo sentimento uns pelos outros e tomavam decisões que refletiam seu cuidado e preocupação mútuos. Eles não participavam do culto e depois iam pra casa, esquecendo-se dos irmãos e irmãs em Cristo. Uma vez que a congregação era tão grande, mesmo se reunindo no átrio do templo, eles também se reuniam nas casas, em unidades menores, para se conhecer, crescer em amor uns pelos outros e cuidar dos problemas e das necessidades uns dos outros (cf. Atos 2:46).
A preocupação mútua ia muito além daquilo que se referia às suas carteiras – era um cuidado real! Eles entendiam que todas as suas posses vinham de Deus, tendo sido dadas a eles não para seu uso exclusivo, mas para serem compartilhadas uns com os outros. Não havia qualquer tipo de coerção. Qualquer crente era livre para ficar com seus bens, se assim o desejasse, e ninguém o considerava inferior por causa disso. No entanto, a maioria vendia suas propriedades e dava o dinheiro aos apóstolos para ser distribuído àqueles que, provavelmente, tinham perdido o emprego devido à sua fé. Eles abriam mão do seu próprio bem-estar e das suas comodidades para o bem de todos. 
O resultado desse espírito desprendido foi grande bênção e poder sobre toda a igreja: “Com grande poder, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles havia abundante graça” (Atos 4:33). Uma congregação onde há cuidado mútuo é uma congregação forte, pois a genuína expressão do amor de Deus é colocada em prática. Jesus disse que esse tipo de amor seria a marca dos verdadeiros discípulos (João 13:35), e onde ele está presente, atrai as pessoas como um oásis no deserto.
E atraiu um casal chamado Ananias e Safira. Eles faziam parte daquela poderosa e diligente comunidade de crentes. O nome Safira significa “bela” ou “agradável” e é o mesmo nome dado àquela pedra preciosa de cor azul-violeta. Ananias significa “Jeová é gracioso”, e Deus certamente foi gracioso para com ele. Ele lhe deu uma linda esposa, abençoou-o com bens materiais, perdoou-lhe os pecados e o levou à comunhão com pessoas que realmente se preocupavam com ele. Isso é muito mais que um homem pode desejar.
Ananias, no entanto, queria mais, e Safira também. Eles queriam mais aceitação; queriam aplausos. Eles não queriam ser apenas membros do Corpo; queriam ser membros ilustres do Corpo. Queriam o louvor dos homens. E isso nos leva ao nosso segundo ponto, ao pecado de Ananias e Safira. Crentes dedicados e altruístas muitas vezes são alvo da admiração e do apreço de outros cristãos. Se forem pessoas espirituais, não são motivadas pelo desejo de receber elogios e aplausos dos homens, mas às vezes os recebem. Na igreja primitiva, as pessoas que vendiam suas propriedades e davam o dinheiro à igreja provavelmente recebiam muitos elogios de toda a congregação. Barnabé foi um daqueles que sacrificou tudo (Atos 4:36-37). Ele não o fez para se exibir. Não havia vestígio de orgulho carnal naquilo que ele fez. Ele só pensou na necessidade dos outros cristãos e na glória de Deus. Mas o reconhecimento estava lá. Ananias e Safira viram isso e quiseram ter o mesmo, e foi aí que seus problemas começaram.
Cobiçar o louvor dos homens é evidência suficiente de que eles estavam agindo de acordo com sua natureza carnal, não no Espírito. Contudo, isso fica ainda mais evidente quando ficamos sabendo que eles depositavam sua esperança para o futuro na sua conta bancária, não no Senhor. Eles não conseguiram fazer o que os outros fizeram – dar todo o seu dinheiro para Deus e confiar somente na Sua fidelidade para suprir as suas necessidades. Eles tinham de ter aquele dinheiro. E estas duas expressões de carnalidade, o desejo de reconhecimento e a confiança em coisas materiais, se tornaram um grande dilema para eles. Como poderiam receber o tão almejado reconhecimento sem depositar todo o montante da venda no altar do sacrifício? Mas eles, finalmente, acharam uma solução. Trapaça!
“Entretanto, certo homem, chamado Ananias, com sua mulher Safira, vendeu uma propriedade, mas, em acordo com sua mulher, reteve parte do preço e, levando o restante, depositou-o aos pés dos apóstolos” (Atos 5:1-2). Eles bolaram um plano para reter para si uma parte do dinheiro recebido pela propriedade e levar o restante para os apóstolos. Eles não disseram, necessariamente, que estavam dando a quantia total recebida; simplesmente deixaram que todos presumissem isso. E pronto, o reconhecimento como crentes espirituais e abnegados que entregaram tudo a Jesus foi instantâneo! 
Mas o que havia de errado com seu plano? Eles não mentiram realmente pra ninguém, mentiram? Eles apenas deram o dinheiro e não disseram o quanto aquilo representava do total. Eles não tinham culpa pelo pensamento dos outros, tinham? É óbvio que tinham. Pedro, com incrível discernimento divino, atribuiu sua farsa a Satanás e disse que eles mentiram para o Espírito Santo (Atos 5:3). Ele lhes explicou que eles não tinham a obrigação de vender sua propriedade. E, mesmo depois de vendê-la, não tinham a obrigação de dar todo o dinheiro à igreja. Mas eles tinham a obrigação de serem honestos (Atos 5:4). O maior pecado de Ananias e Safira foi sua desonestidade, sua farsa, sua hipocrisia, seu fingimento, mostrando uma falsa imagem de si mesmos, implicando em maior espiritualidade do que realmente possuíam, deixando os outros pensarem o melhor sobre eles. Eles estavam mais interessados nas aparências do que na realidade. Pedro disse: “Não mentiste aos homens, mas a Deus” (Atos 5:4).
Alguma vez você já se perguntou como era o relacionamento entre Ananias e Safira? Embora tenham demonstrado uma incrível parceria em sua farsa, sua hipocrisia não podia deixar de afetar seu casamento. Quando as aparências são mais importantes para nós que a realidade, normalmente, as pessoas com quem convivemos sofrem por causa disso. Diante dos outros, escondemos a maioria das nossas atitudes carnais, mas, por detrás das quatro paredes da nossa casa, a nossa tendência é deixar à mostra todos os nossos defeitos – toda raiva, todo mau-humor, todas as grosserias e falta de respeito, todo egoísmo, todo orgulho, todo comportamento infantil. Por causa disso, muitos lares cristãos estão cheios de brigas e conflitos. No entanto, quando alguns cristãos preocupados, querendo nos ajudar, perguntam como estão indo as coisas, logo respondemos: “Vai tudo bem, está tudo ótimo. Nunca estivemos melhor”. E justificamos a nossa desonestidade dizendo a nós mesmos que o que acontece na nossa casa é problema nosso e não é da conta dos outros. Mas a desonestidade só aumenta o peso da culpa, a culpa leva a mais atitudes defensivas e irritabilidade, e a irritabilidade causa maior divergência e discórdia em nosso lar. Essa é uma das armadilhas prediletas de Satanás.
Precisamos ser honestos. Precisamos nos comprometer a ser absolutamente sinceros e transparentes. Esta é a única maneira de escapar dessa armadilha satânica. Quando admitimos nossos verdadeiros sentimentos e motivações para outra pessoa, quando reconhecemos realmente os nossos erros e quando lhe pedimos para orar por nós, isso nos dá coragem para pedir o poder de Deus para mudar. Sabemos que algum dia essa pessoa irá nos perguntar como estão indo as coisas e que teremos de lhe dizer a verdade. Vamos querer estar prontos quando esse dia chegar, pois com nosso crescimento sincero virá uma crescente preocupação com a glória de Deus e com o testemunho da igreja de Cristo. Portanto, vamos deixar o Espírito de Jesus Cristo operar em nós para nos tornar mais parecidos com Ele. Só assim seremos capazes de parar de jogar o jogo das aparências. Só assim seremos autênticos!
Pra começar, marido e mulher podem ser honestos um com o outro. Podem admitir ao parceiro o que se passa dentro deles e, então, se encorajar mutuamente e orar pelas fraquezas um do outro. Eles também precisam ser honestos para com Deus. Quando estão errados, mesmo que estejam cometendo os mesmos erros, eles precisam reconhecê-los abertamente diante do Senhor e parar de ficar se justificando. Só assim serão capazes de crescer espiritualmente. Ananias e Safira podem ter concordado em seu plano fraudulento, mas é óbvio que nunca admitiram sua pecaminosidade um para o outro, nem para Deus. Quando marido e mulher se tornam parceiros no fingimento, um dia isso os destruirá.
Vejamos, finalmente, a importância da disciplina aplicada a eles. Pedro não invocou o julgamento do céu, como algumas pessoas supõem. Ele simplesmente expôs a hipocrisia de Ananias pelo discernimento que lhe foi dado por Deus. “Ouvindo estas palavras, Ananias caiu e expirou” (Atos 5:5). Foi a disciplina da mão de Deus. “Levantando-se os moços, cobriram-lhe o corpo e, levando-o, o sepultaram” (Atos 5:6). Não sabemos como eles o sepultaram sem o conhecimento de Safira, mas, naquela época, os corpos tinham de ser enterrados logo e talvez eles não a tenham encontrado naquele momento. Ela pode ter saído para fazer compras, para gastar um pouco do dinheiro sonegado.
Três horas mais tarde, ela chegou procurando o marido, sem saber o que tinha acontecido. Pedro deu-lhe oportunidade para ser honesta. “Dize-me, vendestes por tanto aquela terra?”, perguntou ele, citando a quantia entregue por Ananias. Safira preferiu continuar mantendo a farsa iniciada pelo marido. Sem hesitar, ela respondeu: “Sim, por tanto” (Atos 5:8). E Pedro lhe disse que ela teria o mesmo destino sofrido por Ananias.
Ficamos amedrontados diante de uma ilustração tão extrema da disciplina divina. Até podemos ficar tentados a dizer que Deus foi severo demais. No entanto, por que Ele fez isso? Ele não parece agir assim hoje em dia. E como somos gratos por isso! Mas, naquela época, era diferente. Aquele era o início da igreja. Até aquele momento ainda não havia ocorrido nenhuma demonstração tão crassa de carnalidade e Deus abominou o dia em que ela se introduziu na igreja. Desde o princípio Ele queria que todos soubessem o quanto Ele odeia a hipocrisia, e que isso fosse conhecido em todas as épocas. Essa é a razão pela qual Ele colocou essa história em Sua Palavra.
Espiritualidade fingida é uma coisa contagiosa. Quando um cristão vê outro cristão agir dessa forma e se sair bem, não vê problemas em tentar também. E, para cada membro que age no poder da carne em vez de no poder Espírito, para cada um que vive para receber o louvor dos homens em vez de viver para a glória de Deus, a eficácia da igreja de Cristo vai diminuindo cada vez mais. Se Deus tivesse permitido a Ananias e Safira levar adiante a sua farsa, isso teria destruído o testemunho da igreja primitiva. Ele tinha de agir naquela hora.
Infelizmente, os anos têm diluído a pureza da igreja e, estando tão longe da singularidade da era apostólica, podemos achar difícil até mesmo reconhecer a nossa própria hipocrisia. Nós pensamos que hipocrisia é um esforço deliberado e calculado para enganar os outros, como foi com Ananias e Safira, e talvez façamos isso de forma inconsciente. Podemos simplesmente cair no hábito involuntário de proteger nossa aparência de santidade, encobrindo os nossos defeitos e escondendo das pessoas o que se passa dentro do nosso coração e do nosso lar. Geralmente isso é mais fácil do que nos entregarmos totalmente a Cristo, deixando-O viver em nós para fazer as mudanças que desejar. Esta forma de hipocrisia tem se tornado um estilo de vida na igreja de Jesus de nossos dias e talvez seja o motivo pelo qual não estejamos causando grande impacto em nossa sociedade incrédula.
Uma grande questão que paira sobre a nossa cabeça depois de termos descortinado a vida de Ananias e Safira é: o que é mais importante – manter a aparência de espiritualidade ou sermos realmente aquilo que Deus deseja de nós? Cultivar só a aparência conduz à morte – morte para o crescimento espiritual, morte para sermos úteis na família de Deus e morte para um relacionamento melhor entre marido e mulher. Por outro lado, o Espírito de Deus pode usar a sinceridade para produzir em nós a vida de Cristo, e isso significa vida abundante, alegria constante e bênçãos sem medida.
FRUTOS DA HIPOCRISIA E DA RELIGIOSIDADE: O QUE PODEMOS APRENDER COM O ERRO DE ANANIAS E SAFIRA
Os dicionários definem a hipocrisia como “característica do que é hipócrita. Falsidade, dissimulação. Ato ou efeito de fingir, de dissimular os verdadeiros sentimentos e intenções”. Este termo tem sua etimologia na língua grega (hupokrisía,) e se referia ao ator de teatro. Hipócrita era a maneira como o povo descrevia este ator que representava um papel. E seu talento estava em convencer a platéia de que ele não era ele mesmo, mas sim aquele personagem ali no palco. Daí, ainda em nossos dias, o termo é utilizado para descrever o ato de fingir ter crenças, virtudes e sentimentos que a pessoa na verdade não possui.

Jesus chamou a atenção para este mal que era visível na vida dos fariseus: “Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas por dentro, estais cheios de hipocrisia e iniqüidade (Mateus 23:28; cf. Mateus 6:1-18, 15:1-20). O problema dos fariseus não era doutrinário ou teológico, mas sim, na qualidade dos seus motivos. Suas atividades eram cercadas apenas por aparência de santidade; apenas para serem vistas pelos homens.

Vejamos algumas frases que ajudam a entender o que é a hipocrisia: 

“Hipocrisia é exigir perfeição das pessoas, mas irar-se quando se é repreendido pelos seus erros. Hipocrisia é sempre enxergar os defeitos alheios, mas nunca se propor a concertar os próprios. Hipocrisia é falar mais do que é capaz de fazer. Hipocrisia é se colocar sempre acima dos outros. Hipocrisia é uma falsa humildade, que se desfaz no primeiro confronto”.

Em nossas reflexões sobre Atos dos Apóstolos nos deparamos, no cap. 5.1-11, com uma triste história. Trata-se do casal Ananias e Safira. Vamos olhar para este texto e aprendermos o grande prejuízo que a hipocrisia trás, tanto para a igreja, quanto para quem a pratica.

I. O Contexto e o erro de Ananias e Safira

Os últimos versos do capítulo 4 (vv. 32-37) descrevem como viviam os cristãos. Havia comunhão, amor, suporte mútuo. Os cristãos praticam a solidariedade e generosidade. Em 4.34 diz que “Não havia nenhum necessitado entre eles, porquanto os que possuíam casas ou terras, vendendo-as, traziam os valores correspondentes e depositavam aos pés dos apóstolos...”. E Lucas registra um exemplo desta generosidade dizendo que Barnabé vendeu sua propriedade e entregou o dinheiro para a igreja (4:36-37).

É exatamente aqui que entra o casal Ananias e Safira. O gesto de Barnabé promoveu profunda impressão neles. Desejosos de imitar o exemplo generoso de Barnabé assentaram no coração o intento de reter parte do valor, e levar o restante para os apóstolos. E qual foi o erro deste casal?

O erro não foi ter dado todo o dinheiro. Não havia qualquer exigência da entrega de todo o montante da venda. Tanto que Pedro pergunta a eles: “Conservando-o não seria teu? E, vendido, não estaria em teu poder? (5.4). O erro consistiu em ter eles dado uma parte, dando a impressão que haviam dado tudo. Hipocrisia e mentira. Aparentemente Barnabé e Ananias praticaram a mesma ação. Ambos venderam a propriedade. Ambos levaram o dinheiro para os apóstolos. A diferença é que Barnabé trouxe o dinheiro, enquanto Ananias trouxe apenas uma parte, fingindo ser todo o dinheiro.

Como bem apontou John Stott, o apóstolo Pedro “não denunciou a falta de honestidade (trazer apenas uma parte do dinheiro da venda), mas a falta de integridade (trazer apenas uma parte, fingindo que era todo o dinheiro). Eles não eram avarentos; eram mentirosos. Queriam o crédito e o prestígio da generosidade sacrificial, sem terem que arcar com as inconveniências. Assim, a fim de conquistar uma reputação à qual não tinham direito, contaram uma mentira deslavada. A motivação do casal, ao dar, não era aliviar os pobres, mas inflar o próprio ego”.

II. A Razões da Hipocrisia (farisaísmo):

A hipocrisia se apresenta quando queremos colocar nossa ênfase nos atos externos de prática religiosa e na aparência pública de espiritualidade. Nós nos orgulhamos do nosso comparecimento à nossa igreja. Oramos mais fervorosamente quando os outros estão escutando do que em particular em nossos quartos. Fazemos questão de que os outros saibam quando nós ofertamos ou ajudamos alguém necessitado. Fazemos comentários públicos sobre nossa devoção a Deus falando sobre nossa leitura bíblica diária, nosso jejum, nosso compromisso com o envolvimento nas atividades da igreja. Fazemos questão que todos saibam o quanto somos “consagrados” em nossas atividades na igreja.

 Os hipócritas amam os holofotes. Não conseguem viver fora das manchetes. Mas devemos perguntar: Porque somos tão facilmente tentados a cair nessa armadilha de exibir nossa espiritualidade? Jerry Barrs nos ajuda dando as seguintes razões: 

1ª.) Primeiro, gostamos que os outros pensem bem de nós. Queremos causar uma boa impressão e representar bem o nosso Cristianismo. Em parte isso é bom. Desejamos seguir a injunção bíblica de evitar toda aparência de mal (1Ts 5:22). Mas o foco de nossa devoção pode ser facilmente desviado. Para atenção de quem eu estou orando? Por que eu estou ofertando? O Senhor nos chama para termos devoção verdadeira a ele nos nossos corações e não estarmos preocupados se os outros pensam que temos uma vida de oração boa ou se damos o suficiente ou se parecemos religioso o bastante.  

2ª.) Segundo, começamos facilmente a nos congratular espiritualmente se os outros nos elogiam. O orgulho se intromete, e prontamente nos esquecemos de nossa pobreza espiritual. Na verdade, quão fria é a nossa devoção, quão morno é o nosso amor, quão fraco e inconstante é o nosso zelo! 

3ª.) Terceiro, essas evidências externas da vida religiosa são muito mais fáceis de realizar do que a verdadeira obediência aos mandamentos de Deus sobre justiça, misericórdia e fidelidade. Todos nós ansiamos por um caminho para a espiritualidade mais fácil do que o que Deus planejou para nós. A todas as nossas desculpas a resposta de Jesus é a mesma: “O que verdadeiramente significa amar a Deus de todo seu coração, e de toda a sua alma e entendimento, e o que significa amar seu próximo como a você mesmo?” Ananias e Safira morreram imediatamente após as repreensões de Pedro, tomados subitamente de um esmagador senso de culpa. Uma grande tragédia que, como o texto nos esclarece, produziu “grande temor a toda a igreja e a todos quantos ouviram a notícia destes acontecimentos” (At 5.11).

A gravidade deste pecado é que a hipocrisia, conduz, inevitavelmente, à duplicidade e por fim à apostasia. Hipocrisia é mentir para os outros sobre nossa comunhão com o Senhor, enquanto duplicidade é mentir para nós mesmos. Passamos a acreditar nesta mentira e nos achamos bons cristãos. O resultado deste processo, lento mas erosivo, é a apostasia. O hipócrita acaba por se afastar da comunhão com Deus.

III. Lições que podemos aprender:

Como já dissemos nas devocionais anteriores, o livro de Atos não é normativo para nós hoje. Nem tudo que aconteceu em Atos, deve necessariamente ser repetido em nossos dias. Se assim fosse, imagine o que aconteceria com os hipócritas que ainda existem dentro de nossas igrejas. Todo domingo teríamos crentes morrendo como conseqüência de seus fingimentos. Não obstante o livro de Atos não ser normativo, Deus ainda hoje condena a hipocrisia. Precisamos extrair os princípios e algumas lições desta tragédia e aplicá-las em nossas vidas.

1ª.) É impossível fingir ou mentir para Deus: Pedro deixar muito claro que o pecado daquele casal foi um pecado contra Deus (5.3,4). Ananias e Safira estavam mentindo para Deus e não para os homens. Davi também entendia assim quando ao encarar seu pecado disse: “pequei contra ti, contra ti somente, e fiz o que era mal perante os teus olhos..” (Sl 51.4).

Precisamos ter consciência deste ponto. Antes que nosso pecado seja contra pessoas, pecamos contra Deus. E ele não precisa ficar nos espionando pelo buraco da fechadura para saber o que fazemos às escondidas “...todas as coisas estão desnudadas e patentes aos olhos daquele a quem temos que prestar contas” (Hb 4:13). Não existe nenhuma criatura que não seja descoberta na Sua presença.

Com Deus não existem cuidados a tomar na tentativa de ocultar nossa vida íntima e privada. Não temos como fingir ser o que não somos. Sempre estamos desnudados na presença dele e isto em face de que Ele “não nos vê como o homem vê...o homem vê o exterior, porém, o Senhor vê o coração” (I Sm 16:7). Sua vigilância é tremendamente perfeita (Sl 139.1-5). Não temos como esconder alguma coisa de Deus. Quando estou namorando, quando da minha relação com meu cônjuge e filhos; quando estou longe dos olhos da igreja, em viagem de férias; quando estou fazendo negócios ou assistindo a minha TV; tudo, tudo está sendo vigiado por Deus e esta vigilância é maravilhosa e sobremodo elevada.

A certeza de que é impossível esconder qualquer coisa de Deus, deveria poderosamente influenciar toda a nossa conduta, a fim de fugirmos do pecado, e caso aconteça, abandonar esta infrutífera e inútil tentativa de tapear Deus.

2ª.) Deus ama sua igreja e deseja protegê-la do grave pecado da hipocrisia: A gravidade deste pecado pode ser constatado por dois aspectos: a) Trata-se de uma mentira contra o Espírito Santo ou contra Deus e b) a morte instantânea e imediata de Ananias e Safira.

Porque Deus ama sua igreja, ele precisa agir de maneira a disciplinar os pecados que surgem em seu meio. Com a morte de Ananias e sua esposa, Lucas diz que “sobreveio grande temor a todos os ouvintes” (v.5,11). As pessoas tomaram consciência de que Deus não tolera o pecado. Ele não “pode suportar hipocrisia com ajuntamento solene. Jesus disse dos fariseus: “Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios; o seu coração, porém, está longe de mim”. (cf. Mc 7.6).

O objetivo da disciplina é manter a igreja pura, restaurar o pecador e trazer glória a Deus. A disciplina não é um caminho opcional para a administração da igreja, mas uma necessidade, que deve ser entendida, obedecida e aplicada, para manter a saúde espiritual da igreja. Calvino, ao falar sobre a necessidade da disciplina eclesiástica disse que: "aqueles que pensam que a igreja pode sobreviver por longo tempo sem disciplina estão enganados; a menos que pensemos que podemos omitir um recurso que o Senhor considerou necessário para nós."

3ª.) É impossível servir a dois senhores: Ananias e Safira, provavelmente, eram membros da igreja. O exemplo de Barnabé mexeu com eles e tiveram com isso um forte desejo de imitá-lo. No entanto, acharam que entregar todo o dinheiro iria depois fazer falta. E resolveram então, tentar “um meio termo, nem tanto ao mar, nem tanto a terra”. Queriam o crédito e o prestígio da generosidade sacrificial de Barnabé, sem terem que arcar com as inconveniências.

Esqueceram da advertência do Senhor: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um, e amar ao outro; ou se devotará a um e desprezará ao outro”. (MT 6.24; Lc 16.13). Ananias não quis servir a Deus e fez do dinheiro, um ídolo e objeto de sua adoração.

Como pontuou certa vez Thomas Watson, “O hipócrita é estrábico, pois olha mais para sua própria glória do que para a de Deus”.

4ª.) Satanás está por trás da hipocrisia (v.3): O pecado de Ananias não foi um acidente. Ao contrário, ele premeditou junto com sua esposa. Veja como foi a pergunta do apóstolo: “Então perguntou Pedro: “Ananias, como você permitiu que Satanás enchesse o seu coração?” (NVI). Esta pergunta dá a entender que Ananias poderia ter evitado o pecado. E a frase seguinte (v.4) “como, pois, assentaste este desígnio em teu coração” demonstra que o pecado surgiu após longa e cuidadosa deliberação. Assim como aconteceu com Judas Iscariotes, Ananias “deu lugar”, “permitiu” que o diabo enchesse seu coração.

Paulo nos exorta a que não demos lugar ao diabo (Ef 4.27). E Tiago nos ensina que “cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atraia e seduz” (1.14). Provavelmente, Ananias e Safira já estavam cedendo às tentações de Satanás e agora permitiam que ele “enchesse seus corações”. Por isso, Pedro exorta a igreja a “resistir ao diabo” (cf. I Ped 5.8,9).

 Precisamos a todo custo evitar a armadilha da atividade religiosa vazia. Podemos começar comparecendo diante de Deus e orar: “Sonda-me, ó Deus, e conhece os meus pensamentos; Vê se em minha conduta algo te ofende, e dirige-me pelo caminho eterno” (Sl 139.23,24). Aos olhos de Deus, somos julgados não tanto pelo que fazemos e sim por nossos motivos para fazê-lo.

Como bem disse A.W. Tozer: “Não “o quê” mas “por quê” será a pergunta importante que ouviremos, quando nós, crentes, comparecermos no tribunal, a fim de prestarmos contas dos atos praticados enquanto estávamos no corpo”

FONTES DE PESQUISA

https://bible.org/node/24072
http://gildasioreis.blogspot.com.br/2010/04/o-pecado-de-ananias-e-safira.html

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